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Digitalização financeira e o papel do numerário

  • Foto do escritor: Inteligov
    Inteligov
  • 26 de jan. de 2021
  • 7 min de leitura

Atualizado: 23 de fev. de 2023

O processo de digitalização financeira iniciado, principalmente, na última década, somado ao desenvolvimento de novas tecnologias, mudou radicalmente a forma de consumo da sociedade. 


No setor financeiro, a adesão aos novos meios de pagamento, o uso massivo de aplicativos para a realização de operações online e o surgimento das fintechs – startups financeiras que investem em tecnologia para oferecer serviços digitais inovadores – vêm contribuindo para a transformação do setor. 


Em relação às fintechs, somente entre 2019 e 2020, o crescimento do número de instituições ultrapassou 30%.


Embora o setor financeiro venha se reinventando e apresentando soluções inovadoras, como ocorreu com a criação do Open Banking e a implementação do PIX, o movimento da adesão à digitalização bancária ainda não reflete a realidade da população brasileira.


O papel-moeda, ou seja, a representação do sistema monetário do país, impresso em cédulas pelo Banco Central, faz com que o numerário ainda seja o principal meio de pagamento no Brasil. 


Nesse sentido, de acordo com Mariana Chaimovich, Legal Advisor do Instituto de Estudos Estratégicos de Tecnologia e Ciclo de Numerário (ITCN) — associação sem fins lucrativos que atua para o desenvolvimento de estudos relacionados a inovações na área de gestão de ciclo de numerário — é importante ressaltar que o dinheiro em espécie e meios digitais são tipos de pagamento que se complementam. 


“Não existe uma competição entre os dois meios — ambos podem e devem existir simultaneamente para suprir a população com alternativas e garantir a capilaridade de pagamentos em todas as regiões do país”, afirma.


A coexistência dos modelos de pagamento se faz necessária, sobretudo, porque a modalidade digital não atinge todas as camadas sociais do país. 


Apesar do fato de que 71% dos cidadãos brasileiros dispõe de acesso a smartphones, segundo o relatório Brazil Digital Report de 2019, a falta de acesso à internet ainda é considerada um impeditivo para o ingresso à digitalização bancária. 


“Devido às dimensões continentais do Brasil, existem regiões não providas de meios tecnológicos próprios para uma disseminação em massa de pagamentos eletrônicos ou ainda sem acesso fácil ao sistema financeiro. Muitas vezes, como ocorreu recentemente no Amapá, acontecem catástrofes que simplesmente impedem o acesso da população à internet. Isso comprova que, em grande medida, não é possível vislumbrar um cenário no qual a maior parte da população brasileira deixe de utilizar o dinheiro em espécie”, explica Chaimovich.


Nesse contexto, é fundamental compreender o papel que o numerário representa no cenário brasileiro, especialmente às populações mais vulneráveis. 


O estudo “O brasileiro e sua relação com o dinheiro“, elaborado pelo Banco Central (Bacen) em 2018 — com residentes das capitais e municípios de cem mil habitantes ou mais, caixas de comércio, estabelecimentos de serviço, de classes sociais majoritariamente B, C, D e E — revelou que 30% da população no Brasil acima de 15 anos, o equivalente a 45 milhões de brasileiros, ainda não têm conta em bancos e cerca de 43% dos adultos que não têm contas bancárias vivem nos domicílios 40% mais pobres. 


Como explicação para se manterem desbancarizadas, 57% das pessoas entrevistadas no país, mencionou o custo como barreira, enquanto 32% apontaram a distância das instituições financeiras como motivo.


A pesquisa aponta ainda que 29% da população brasileira tem como forma principal de recebimento de salário o pagamento feito em dinheiro vivo e 48% recebe por meio de depósito em conta. 


Em relação à forma adotada para realizar pagamentos, seja para contas essenciais ou compras, o dinheiro em espécie é adotado por 96% dos cidadãos e 60% o consideram como o meio principal de pagamento, sendo utilizado na maioria das compras até R$100,00. 


Na perspectiva do comércio, o dinheiro é a forma de recebimento de pagamentos mais frequente (52%). 


“Isso mostra que o numerário ainda desempenha papel relevante como forma de pagamento para a população brasileira”, declara Chaimovich.


O caminho do dinheiro e os desafios do setor

Entre as responsabilidades do Banco Central está o gerenciamento do meio circulante, ou seja, garantir o fornecimento adequado de dinheiro em espécie para a população. 


Para que isso aconteça, existe um longo processo a ser percorrido, que tem início com a solicitação de impressão de dinheiro pelo Banco Central, a fabricação por empresa especializada e a emissão pelo Bacen. 


É a partir daí que o dinheiro passa, de fato, a valer, e é quando ocorre a operacionalização e logística de armazenamento e distribuição entre os bancos.


Em 2019, segundo dados da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), havia um volume de 6,27 bilhões de cédulas circulando no país – equivalente a R$232,7 bilhões. 


Esse número está constantemente aumentando. Para se ter ideia, em 2011, por exemplo, havia 4,48 bilhões de notas, no valor de R$136,11 bilhões. 


Toda essa movimentação, que envolve diferentes atores, evidencia a relevância da modalidade de pagamento por meio do dinheiro em espécie e suscita discussões acerca das demandas do setor.


De acordo com Chaimovich, em relação à defesa de interesses e a criação de políticas públicas, o maior desafio é informar os tomadores de decisão.


 “Muitas vezes, mesmo as proposições e políticas públicas que têm boas intenções – notadamente melhorar o acesso da população ao dinheiro em espécie e proteger essa população contra a violência –, podem ter consequências contrárias”. 


Para exemplificar as questões envolvidas nessa discussão, vale lembrar a criação do o Projeto de Lei 1583/2007 que, segundo levantamento da Inteligov, objetivava a proibição do transporte de dinheiro, a partir do montante de R$4,2 milhões, antes da meia-noite e após as cinco horas da manhã — sob justificativa de evitar tragédias irreversíveis para a sociedade com a circulação de carros-fortes em horários de grande movimentação nos centros urbanos.


O tema entrou em pauta no Congresso em função das recorrentes ondas de ataques aos caixas eletrônicos que ocorreram no país. 


Um levantamento realizado pela Febraban, com 17 instituições financeiras que respondem por mais de 90% do mercado, revelou que em 2018 foram realizados 171 assaltos e tentativas às agências. 


Estima-se uma média de dois bancos ou caixas eletrônicos explodidos por dia, principalmente em pequenas cidades sem grande presença policial.


Para a especialista, no entanto, alterar o horário de circulação dos carros-fortes pode não ser a solução e, inclusive, gerar ainda mais violência. 


“A intenção inicial dos parlamentares é proteger a população, porque, na percepção deles, se ocorresse algum assalto à noite, não haveria ninguém nas ruas e, em caso de confronto, ninguém seria ferido. Nossa função é lembrá-los de que, no período noturno, o policiamento tende a ser menor, a resposta da polícia demora mais e, justamente por isso, em caso de confronto, as consequências negativas podem ser muito maiores”, afirma. 


“Cabe a nós apresentar informações e dados para embasar os nossos argumentos para demonstrar que, muitas vezes, existem soluções menos gravosas para o setor e que são, invariavelmente, benéficas para a população também”, completa. 


Diante desse cenário, a atuação junto aos reguladores e o acompanhamento das proposições feitas pelo Congresso são fundamentais para assegurar o funcionamento sustentável do setor.


Paralelamente ao papel educativo, o setor investe também em soluções. Elas podem ser percebidas na aplicação do uso de tecnologias para reduzir os crimes cometidos contra agências bancárias e caixas eletrônicos (terminais ATM). 


O avanço pode ser compreendido desde a revisão da segurança do transporte e a projeção dos caixas – desenvolvidos sem espaço para a inserção de explosivos e chumbados para evitar o risco de qualquer tipo de manuseio – até a implementação de leitor biométrico que promove mais segurança aos usuários no momento de utilização.


Além destas medidas, Chaimovich também destaca outras tecnologias adotadas pelo setor. Confira abaixo quais são elas!


I. Cassetes flexíveis 

Dispositivos adaptáveis para armazenar e transportar cédulas, que se ajustam aos diversos tamanhos de notas existentes e podem ser encaixados nos caixas eletrônicos, os quais comportam múltiplos cassetes. 


II. Mecanismos antirroubo

Por exemplo, o entintamento, que danifica as cédulas em caso de tentativa de romper o caixa eletrônico ou carro-forte – instalados pelos bancos em 75% dos caixas até 2019, segundo dados da Febraban.  


III. Saque no varejo

Trata-se da possibilidade de utilizar o numerário do próprio caixa do estabelecimento para saque, evitando, assim, parcela significativa dos custos com transporte. 


Ela explica, ainda, que tem sido desenvolvido um aplicativo que facilitará a operacionalização de pedidos, além do fluxo de dinheiro entre clientes e estabelecimentos — essa solução deverá diminuir os custos e aumentar a segurança do ciclo de numerário.


Os efeitos causados pelo Coronavírus

A pandemia da Covid-19 causou danos à economia global e afetou os países em todos os aspectos, provocando mudanças significativas em todos os setores.


Com as medidas de isolamento adotadas pelas nações, os hábitos das populações também sofreram alterações. A partir do início da crise, por exemplo, foi possível ver uma tendência de alta no uso do mobile banking. 


De acordo com dados do Instituto Locomotiva, o número de compras feitas por aplicativos de smartphones aumentou 30% no Brasil no primeiro mês da pandemia. 


Além disso, segundo a Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, o isolamento social gerou crescimento de 21% dos pagamentos realizados por meio de aplicativos contra apenas 8% em 2018.


O aumento significativo nas transações, no entanto, não foi exclusividade dos meios de pagamento digitais. 


Um levantamento feito pelo Sistema de Administração do Meio Circulante do Banco Central (SISMECIR) mostra que houve crescimento de 45% no dinheiro em espécie em circulação de outubro de 2019 a outubro de 2020. 


Chaimovich lembra que essa tendência também foi observada em outros países do continente americano durante o mesmo período.


Conforme dados utilizados para estudo comparativo elaborado pelo ITCN sobre bancos centrais e uso do dinheiro em espécie durante a pandemia, Canadá, Chile e México tiveram aumento das transações digitais, assim como crescimento do volume de saques de dinheiro durante 2020. 


No Canadá, dados do Sistema de Distribuição de Notas Bancárias demonstram que o valor das notas em circulação cresceu fortemente em março/abril de 2020. 


Esse aumento foi significativo tanto em dólares quanto em valores percentuais em relação aos anos anteriores.


No Chile, durante o segundo trimestre de 2020, o crescimento da demanda de numerário foi da ordem de 16%, enquanto nos últimos 12 meses foi registrado aumento de 40% no uso das “Cuentas Corrientes”, e 30% nas “Cuentas Vista”. 

Já no México, a busca por dinheiro em espécie aumentou 8,26% desde o fim do ano de 2019. Ao mesmo tempo, organizações financeiras relataram aumento da adoção de meios de pagamento digitais. 


“Deste modo, a pandemia não provocou diminuição das atividades do setor, pelo contrário: o aumento na demanda por numerário exigiu plena capacidade e atividade do setor para atender as necessidades da população brasileira em 2020 e 2021”, afirma Chaimovich.


Assim, o retrato do uso de numerário durante o período da pandemia veio para reforçar a ideia de que, ao contrário do que se supõe, o dinheiro em espécie ainda tem extrema relevância no Brasil, sendo vital para grande parte da população e, também, para o funcionamento do setor e seus diversos atores. 


Mais do que isso, o cenário aponta que a inovação promovida nos meios de pagamento chega para somar e oferecer novas possibilidades, sem descaracterizar a importância do numerário na sociedade.

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