A guerra entre Rússia e Ucrânia e possíveis reflexões para os profissionais de Relações Governamentais

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Em Relações Internacionais, há o conceito de Destruição Mútua Assegurada (Mutually Assured Destruction – MAD), cunhado durante a Guerra Fria, que preconiza que o uso de armamento nuclear em larga escala por dois ou mais Estados beligerantes garantirá a aniquilação tanto de todos os envolvidos, tal qual se temia naquele período. Ter esse conceito em mente ao se observar os desdobramentos da guerra entre Rússia e Ucrânia é fundamental para se analisar os possíveis cenários futuros, pois, ainda que a Guerra Fria tenha deixado de ser uma realidade, algumas de suas maiores ameaças à paz e à segurança internacional permanecem. 

A Ucrânia, a despeito do apoio dos Estados Unidos e da União Europeia, sofre muito com o conflito: em termos humanitários, com o deslocamento forçado de parte de sua população para países vizinhos e com a morte de civis ucranianos; também em termos econômicos, pois o bombardeio de suas cidades tem levado à destruição de sua infraestrutura. 

A Rússia também sofre. Várias sanções econômicas já foram impostas ao país, desde a exclusão do sistema SWIFT (Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais, em português) – que permite a troca de moedas entre países de forma segura – até a proposta de se negar o status de “Nação Mais Favorecida” na Organização Mundial do Comércio (OMC), o que poderá ter impacto nas transações comerciais da Rússia com outros países. Além disso, a aprovação, por larga maioria, de uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas condenando a campanha russa demonstra a reprovação da comunidade internacional em relação às ações de Moscou.

Apesar de todas as sanções já impostas à Rússia e todas as repercussões políticas, econômicas e comerciais da guerra, tanto em âmbito regional quanto global, o conceito de MAD mostra que uma solução puramente militar é inviável. Embora possam fazer frente ao poderio bélico russo, os Estados Unidos e os países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) muito dificilmente se envolverão nas hostilidades, sob risco de desencadear uma retaliação nuclear de proporções catastróficas. Dessa forma, a tendência é que ambos os lados do conflito optem por uma negociação de cessar-fogo, ou, na pior das hipóteses, pelo prolongamento do conflito enquanto não se alcança um consenso. 

O Brasil, mesmo tendo adotado uma postura relativamente neutra, já sofre os efeitos dos acontecimentos que ocorrem geograficamente longe, mas, economicamente perto. O mais nítido é sentido nas bombas de gasolina: a alta do preço do petróleo ocasionou o aumento no preço dos combustíveis. Além disso, a Rússia é responsável por 23% das nossas importações de fertilizantes (dados do Comexstat) e cerca de 85% dos adubos utilizados são importados. Apesar de o governo garantir que há estoque suficiente de insumos para a safra atual, a depender da duração do conflito, existe a possibilidade de impacto considerável na safra de outubro. 

Para um país como o nosso, que depende, em grande medida, do transporte rodoviário para escoar a produção e em que o agronegócio foi responsável por 27,4% do PIB em 2021 (dados do CEPEA/USP, com apoio da CNA), a alta dos combustíveis e uma possível escassez de fertilizantes pode representar maior aumento no preço das commodities, aumento na inflação e na taxa de juros e, consequentemente, um impacto direto na atração de investimentos estrangeiros. Há, ainda, de se considerar os efeitos econômicos globais do conflito, já que as cadeias globais de valor e suprimentos também estão sendo afetadas.  

Em um mundo globalizado como que o que temos hoje, o conflito mostra como é importante o profissional de relações governamentais (RIG) estar atento ao que ocorre não só em solo nacional, mas, também, em outros países, nas relações comerciais que o Brasil estabelece e, mais recentemente, em como as empresas respondem a esses desafios. 

De pronto, torna-se evidente como é preciso fortalecer a fabricação nacional de insumos e fertilizantes. Mesmo a dependência internacional já sendo de conhecimento prévio do governo e mesmo com as lições deixadas pela crise da pandemia de Covid-19, a institucionalização de uma política pública voltada para o setor só foi concretizada com a escalada da guerra, a partir do lançamento do Plano Nacional de Fertilizantes, no dia 11 de março. 

Aqui reside um dos mais importantes papéis do profissional de relações governamentais: entender o cenário com o qual se trabalha, mapeando as debilidades e as fortalezas intrínsecas a ele e formular uma estratégia de atuação que permita não só maximizar os ganhos, mas, também, mitigar eventuais riscos e prever ações específicas em momentos de crise. A partir do momento em que se identifica uma vulnerabilidade em termos de legislação, de política pública ou até de cenários externos, o profissional de RIG precisa se antecipar, ser proativo e começar a articular seu trabalho de forma a minimizar os efeitos para o seu setor e para o seu cliente. 

É claro que, toda e qualquer estratégia de atuação em relações governamentais precisa e deve levar em consideração o contexto político que existe na tomada (ou até na não-tomada) de decisão. No caso específico dos fertilizantes, certamente houve uma preferência pelo insumo importado, seja em virtude do melhor preço, seja pela qualidade melhor ou algum outro motivo. A reflexão importante a partir daqui é buscar entender como o setor produtivo nacional pode estar mais bem preparado para enfrentar situação similar no futuro. E, de forma natural, como o profissional de RIG pode estar atento aos acontecimentos internacionais, buscando identificar possíveis repercussões e ter, sempre que preciso, um plano de mobilização para eventuais crises.

Contudo, a guerra atual não é importante apenas nesse aspecto. Ela enseja um debate maior e mais transversal para as empresas, nacionais e multinacionais, e ao qual o profissional de relações governamentais também deve estar atento: a necessidade de atenção aos padrões e critérios em ESG (em português, ambiental, social e governança). Inclusive, por se tratar de um conflito que se passa na Europa, a recente proposta de diretiva que propõe dever corporativo de due diligence (devida diligência) sobre grandes empresas na União Europeia torna o tema ainda mais relevante, inclusive para o investidor brasileiro. 

Com a pressão cada vez maior para que as empresas apresentem seus planos e ações para uma conduta empresarial mais responsável, a guerra se mistura com os negócios. Empresa alguma quer ser acusada de estar financiando um conflito ou de ser condizente com as ações tomadas em desfavor de civis. Os acionistas estão demostrando que as sanções vão transbordar o nível governamental e adentrar a esfera privada. Várias empresas, de vários setores, já anunciaram o fim das operações na Rússia ou o encerramento de suas atividades com parceiros russos. O recado é claro: é mais importante prezar por um ambiente de negócios seguro, justo e em que os direitos são respeitados do que manter os negócios operando, mesmo que isso represente prejuízos financeiros em curto prazo. 

É possível esperar, portanto, que o debate sobre a incorporação de padrões ESG pelas empresas será cada vez mais presente. Os consumidores estão mais atentos e as empresas precisam responder à altura. O profissional de relações governamentais precisa acompanhar essa demanda. É preciso entender como sua empresa ou setor pode se aproximar de melhores práticas internacionais e trazê-las para o dia a dia. É preciso investir em capacitação e em conhecimento, é preciso dialogar a respeito. É necessário, principalmente, para que tal mentalidade transborde os muros da iniciativa privada e chegue aos tomadores de decisão. Dessa forma, podemos pensar em uma realidade futura em que conflitos, como o que se atualmente testemunha, poderão ser gerenciados, mitigados, ou, até mesmo, prevenidos e evitados antes de se tornarem realidade.

Viviane Aversa Franco é formada em Relações Internacionais, especialista em Ciência Política e profissional de relações governamentais e institucionais. 

Luiz Gustavo Aversa Franco é Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e professor no Centro Universitário UDF.

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