Organização e gestão do tempo em RIG durante a pandemia: balanço do ano e perspectivas para o próximo ano

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Ilustração em tons de azul de homem apontando para calendário indicando sua organização em RIG.

Com o recesso legislativo se aproximando, e em um contexto sem precedentes, conversamos com Beatriz Falcão, Analista de Comunicação e Relacionamento Institucional da Abrint (Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações). Ela também é colaboradora do projeto Dicas – Mulheres em RIG, além de ser a criadora do podcast Patada de Pantufa, no ar em todas as plataformas de streaming de áudio.

Beatriz é formada em ciência política pela Universidade do Distrito Federal (UDF), cursou Filosofia pela Universidade de Brasília (UnB) e é pós-graduada em Relações Governamentais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ela conta que começou a carreira em RIG já no estágio, na Gerência de Relacionamento Parlamentar (GEREP) da Caixa Econômica Federal. Passou por tradicionais consultorias como a Umbelino Lobo, Queiroz e foi Coordenadora de Back Office da consultoria Dominium, onde teve um grande desafio de organização.

A área de RIG tem algumas características próprias, que podem tornar o planejamento das atividades bastante complexo e sujeito a mudanças drásticas imprevisíveis. “O Relgov acontece de uma maneira absolutamente orgânica e as coisas se atropelam de uma maneira surreal”, diz.

Organização e priorização de demandas

Apaixonada por organização, Beatriz conta que teve de adotar estratégias ao longo de sua carreira para lidar com essas situações de mudanças não previstas no cenário traçado. “Gosto de sentar no domingo e organizar a semana. Faço isso como se fosse um ritual religioso”. Na área de RIG é preciso saber flexibilizar ou, às vezes, refazer todo o planejamento do zero ao longo da semana.

Uma das principais funções do profissional de RIG é traduzir de forma contextualizada os acontecimentos no cenário político e regulatório para o cliente. Seja ele interno ou externo, pode haver uma tendência de exagerar as perspectivas de impacto político ou regulatório e priorizar todos os temas e demandas. “Nosso trabalho [do profissional de RIG] é quase que de psicólogo.” Além de organizar a própria rotina, é preciso dosar as expectativas e saber priorizar o que realmente é urgente.

No caso do trabalho em consultorias, há ainda outros obstáculos na organização da rotina e gestão do tempo das equipes. Nessas situações, é preciso atender demandas de mais de um cliente ao mesmo tempo e a equipe não está disponível para cada um deles, simultaneamente, durante todas as horas úteis. É preciso dividir o tempo de ação com a produção de material técnico e rotinas fixas. Por isso, Beatriz ressalta tanto a importância de saber priorizar as demandas por grau de urgência, não só de importância. “Tive de aprender a dizer não”, comenta.

A adaptação às mudanças provocadas pela pandemia

Com a pandemia, 2020 foi um ano decisivamente atípico e, graças à não instalação das Comissões na Câmara dos Deputados, Beatriz afirma que a sensação é de que o recesso legislativo durou o ano todo. Trabalhar com o mesmo volume de informação do Congresso Nacional em um ano normal, em meio à pandemia “seria inviável”. Mas ela ressalta que o volume de trabalho não diminuiu, aumentou. “Nunca foi comum sair uma Medida Provisória na sexta-feira às 10h da noite, por exemplo”, afirma. Algo que viu acontecer com frequência durante o ano.

Outra mudança notada por ela é a impossibilidade de fazer contatos rápidos e pontuais com parlamentares. “Antes, era possível encontrar o parlamentar na saída da Comissão, por exemplo, e levar um assunto de forma rápida, sem necessidade de aguardar 15 dias por uma audiência”. Por outro lado, o famoso “chá-de-cadeira” não tem sido tão frequente. Reuniões agendadas com as autoridades, virtualmente, têm ocorrido sem grandes atrasos.

A situação de pandemia também modificou o foco do trabalho do profissional de RIG. “O nosso olhar teve que mudar”. Beatriz conta que o acompanhamento e monitoramento do Executivo e dos estados e municípios se tornou ainda mais relevante e pode ter pego de surpresa quem ainda não fazia esse trabalho de forma mais disciplinada. A indefinição sobre as competências legislativas entre os entes federativos, principalmente no início, também foi desafiadora.

A cooperação entre os profissionais foi um fator extremamente positivo, segundo Beatriz. Só ela participou de mais de 15 grupos de WhatsApp de troca de informações. Ela contou, ainda, sobre a criação do grupo Dicas – Mulheres em RIG, do qual participa desde o início. O que começou como um canal para ajuda mútua sobre situações cotidianas, se tornou um grupo com mais de 650 mulheres profissionais da área de todo o país, que organizou diversas atividades ao longo do ano, como webinars, documentos e realocação de profissionais.

Com a restrição de acesso ao Parlamento, estar atualizado sobre as conversas de bastidores e os acontecimentos nos corredores do Congresso Nacional ficou mais difícil. “As coisas continuaram a acontecer, só que não é possível mais estar presente fisicamente”. Esse cenário, que ainda deve perdurar por algum tempo, exige que se adotem outras estratégias para monitorar o Legislativo, como a utilização de uma boa plataforma de monitoramento. “Não dá mais para trabalhar com Relgov usando planilha”, afirma Beatriz.

Como se planejar para o recesso e 2021

Para o próximo ano, Beatriz acredita que o Congresso trabalhará por um bom tempo com restrição de acesso ou de forma híbrida. Algumas das mudanças podem ter grande impacto na organização do trabalho. “Apenas quem é essencial deverá ir ao Congresso ou à uma reunião no Executivo”. Ela lembra, ainda que grande parte dos parlamentares pertence ao grupo de risco para a Covid-19.

Em 2021, o profissional de Relgov deverá ainda se preparar para dois cenários: de instalação das comissões na Câmara após as eleições para a presidência da casa e para a situação próxima da atual, em que os projetos têm que passar diretamente pelo Plenário. “Isso muda totalmente nossas estratégias. É provável que as comissões voltem após as eleições [das presidências]. O Congresso não voltará a funcionar como antes, pelo menos enquanto não houver vacina [para o coronavírus].”

Durante o recesso, ela sugere que o profissional organize a casa, refaça a priorização das atividades e tenha em mente que “nada está garantido”. O período de incertezas ainda durará e o planejamento estratégico do ano que vem poderá ter que ser refeito.

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