Grassroots: a influência em decisões estratégicas

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Fundamental à estrutura de toda e qualquer democracia, a representatividade, em seu sentido mais amplo, é responsável por unir atores — sejam eles pessoas físicas ou jurídicas — em prol de um objetivo comum. Muito além do sistema eleitoral, no qual a representatividade se constitui como elemento basal no regime democrático, a organização de entidades, empresas, cidadãos e sociedade civil pode ser observada, também, na prática do lobby, advocacy e grassroots.

O lobby, atividade legítima e necessária, pode ser compreendido como a ação de um indivíduo, cuja finalidade é influenciar diretamente agentes públicos e políticos durante o processo de tomada de decisão. O advocacy, por outro lado, busca, fundamentalmente, defender uma causa. E embora esses termos sejam comumente confundidos, existem diferenças importantes entre cada uma das práticas. Do mesmo modo, o grassroots — ainda que apresente semelhanças às atividades de lobby e advocacy — se distancia desses conceitos pela maneira como foi concebido e é executado.

Em tradução livre, grassroots significa “raiz da grama” e diz respeito à atuação local, tendo como principal objetivo a mobilização de bases. A atividade visa empoderar grupos locais, regionais e/ou nacionais de maneira horizontal e contempla, em geral, estratégias de decisões “bottom-up” (de baixo para cima) em detrimento do “top-down” (de cima para baixo).

Dessa forma, um dos princípios que norteia a atividade de grassroots é a criação de comunidades orientadas à gestão de influência de tomada de decisão. A liderança desses grupos, construída por atores que se unem para defender interesses em comum, objetiva o impulsionamento do poder coletivo. A prática busca, ainda, oferecer ferramentas para que indivíduos possam se apropriar de uma causa e operar colaborativamente para obter os resultados desejados para o ambiente de atuação.

Grassroots na prática

As campanhas de grassroots podem se assemelhar às ações de grupos de interesse. A partir da criação de movimentos sociais locais e definição de pautas, a atuação desses grupos ocorre por meio da pressão perante ao poder público. A prática é bastante comum nos Estados Unidos, e um dos exemplos mais conhecidos de grassroots no país é observado na conquista do voto feminino.

A luta centenária do movimento sufragista, reuniu milhares de mulheres que batalharam arduamente pela igualdade de gênero e pressionaram governantes, com diversas mobilizações sociais e passeatas, para assegurar o direito ao voto. O resultado obtido pelo movimento foi a ratificação da 19.ª Emenda à Constituição Americana — um importante marco em direção à igualdade. No entanto, a conquista foi inicialmente limitada: mulheres negras tiveram o direito ao voto apenas na década de 1960, com a Lei de Direitos Civis.

No Brasil, em exemplo mais recente — a greve dos caminhoneiros de 2018, também conhecida como Crise do Diesel —, demonstra a importância do grassroots. Motivada pela alta no preço dos combustíveis, caminhoneiros mobilizaram suas bases e se uniram para compor uma das paralisações mais históricas do país.

O Brasil é um dos países mais dependentes da malha rodoviária do mundo: 58% de sua mercadoria é distribuída por caminhões em todo o território nacional, segundo dados do Banco Mundial. Ao conscientizar-se sobre a importância da categoria para o ecossistema brasileiro, a criação de grupos para defender os interesses de classe exerceu grande pressão sobre as autoridades e resultou em impactos significativos para a economia.

A mobilização foi crescente e a ação, que começou localmente, ganhou força e atingiu 20 estados com bloqueios nas estradas. Além disso, a atuação dos caminhoneiros impactou o reabastecimento de alimentos e combustíveis, em ao menos 15 estados. Diante do cenário de calamidade, o governo passou, então, a buscar acordos com os manifestantes.

Renard Aron, que possui 20 anos de experiência na área de relações governamentais no Brasil e nos Estados Unidos, relata, em seu livroLobby Digital — Como o cidadão conectado influencia as decisões do governo e das empresas”, outro exemplo de grassroots bem-sucedido. Em 2011, a então senadora Kátia Abreu lançou uma campanha de grassroots, durante a tramitação do novo Código Florestal no Congresso Nacional, para influenciar a votação da proposta. Para isso, atraiu cerca de 20 pequenos e médios produtores rurais em uma manifestação em Brasília. Em entrevista exclusiva à Inteligov, Aron explica os diferentes conceitos que permeiam o lobby e as relações institucionais e governamentais.

Legitimidade do Grassroots frente o Astroturfing

As campanhas de grassroots, além de absolutamente legítimas, são essenciais para o fortalecimento dos pilares democráticos e para o fomento da participação cidadã na vida política, uma vez que a mobilização de bases locais é capaz de mudar o curso de tomadas de decisões, tal como as atividades de lobby e advocacy.

Um dos desafios encontrados no processo de grassroots, no entanto, diz respeito à prática de astroturfing. O termo vem de AstroTurf, uma marca de grama sintética criada para dar a aparência de um gramado natural.

A expressão foi construída como um trocadilho para grassroots e a ação consiste em mascarar patrocinadores de uma mensagem, com a finalidade de forjar sua origem ou apoio nas atividades de grassroots. O objetivo é conferir credibilidade às ações de determinado grupo sem que seja necessário fornecer informações a respeito. De forma simplificada, astroturfing é a manipulação da opinião pública por meio da mídia.

Como exemplo da prática, Sharyl Attkisson, jornalista americana e ex-âncora da CBS, cita, em palestra realizada no TEDx sobre o tema, o caso de um estudo recém-lançado pela Fundação Nacional do Sono que apontava para uma epidemia de insônia nos Estados Unidos. Os dados viralizaram e foram noticiados por diversos canais americanos.

Ao estudar o caso, a frase “pergunte ao seu médico” chamou a atenção de Attkisson, como uma pegadinha promovida pela indústria farmacêutica. De acordo com ela, “ao conseguirem nos levar ao consultório médico para falar de uma enfermidade, é bem provável que sairemos com a receita da última droga do mercado”. Após um processo de pesquisa e investigação, Attkisson descobriu o que, tanto a fundação como o estudo, eram patrocinados em parte por um novo medicamento prestes a ser lançado no mercado: Lunesta, uma pílula para dormir. A epidemia de insônia nunca aconteceu.

Para ajudar no processo de identificação de astroturfing, Attkisson explica que, em geral, os discursos tendem a ser sensacionalistas, com características de que se trata de uma farsa e/ou conspiração e ressalta a importância de se atentar a interesses que abordam um assunto gerando controvérsias ou ataques às pessoas, personalidades e organizações envolvidas em vez de apresentar fatos.

Criar mecanismos para identificar práticas de astroturfing é fundamental para romper com a disseminação de informações falsas que podem, muitas vezes, tentar tirar a legitimidade e credibilidade de ações de grassroots, por exemplo — as quais são essenciais para a sociedade e o progresso social e econômico do país.

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