Raiane Paulo destaca as particularidades das estratégias em RIG

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A Inteligov convidou a Raiane Paulo dos Santos para falar sobre o papel do profissional de RelGov na apresentação de pautas que podem ser determinantes para que a empresa tenha destaque em seu setor de atuação. Além disso, Raiane comentou sobre os desafios de executar estratégias em estados e municípios e destacou como é possível encontrar maneiras de facilitar o monitoramento de informações essenciais.

Raiane é cientista política, especializada em Análise e Marketing Político e possui MBA em Gestão Empresarial. Atua no mercado de Relações Governamentais há mais de 10 anos e atualmente é Coordenadora de Relacionamento com o Poder Público na Oficina Consultoria.

Também está presente em iniciativas de equidade, diversidade e inclusão, como mentora do Lobby Social, integrante dos coletivos Pretos e Pretas em RelGov e Dicas – Mulheres em RIG, além de coordenar o Comitê de Diversidade e Inclusão da Oficina Consultoria.

Um dos maiores desafios de empresas de todos os setores é construir um posicionamento de autoridade no mercado em que atuam. Qual o papel do profissional de RelGov na construção dessa autoridade?

Em primeiro momento, o papel do profissional de RelGov é entender as necessidades do cliente, quais são os temas prioritário e periféricos, o cenário regulatório que o impacta, quais são as perspectivas da instituição e do setor para o curto e médio prazo e só então, a partir deste primeiro mapeamento, atuar na elaboração de conteúdos, percepções técnicas e relacionamentos, de forma a construir ou fortalecer a reputação da empresa.

O mercado empresarial é altamente competitivo. Como este ambiente interfere no trabalho do profissional de RelGov?

Sim, o mercado empresarial está em constante evolução, como por exemplo a temática ESG. Por isso, atuar em relações institucionais e governamentais torna-se cada vez mais estratégico, visto que a defesa de interesses conduzida de forma ética, transparente e coordenada com tecnologias e comunicação permitirá o atingimento de metas, a observância e condução de riscos e a geração de valor agregado. 

Neste novo cenário, quem atua em RelGov precisa estar preparado para: mapear e estabelecer relações com stakeholders, políticos ou não; gerir crises; e se comunicar com o público externo/interno e com as mídias.

Como você avalia a atuação de RelGov junto ao Poder Público nos âmbitos federal e regional?

Este monitoramento definirá como e quando as estratégias, desenvolvidas de forma personalizada para cada cliente, serão iniciadas. A atuação é essencial e diferente em cada um dos três níveis de governo: federal, estadual e municipal. Costumo dizer que temos vários “Brasis” representados não só no regimento interno de cada uma das casas legislativas, mas em seu funcionamento informal, na maneira em que as relações entre executivo e legislativo de cada cidade ocorrem, no acesso do eleitorado aos parlamentares eleitos e etc. 

Muitas variáveis são importantes para a definição da estratégia de atuação e, após a pandemia, os entes subnacionais ganharam ainda mais importância e força política, demonstrando que o relacionamento com stakeholders deve ser feito de forma planejada, com comunicação contínua e não apenas nos momentos de crise.

Levando em conta a sua experiência como profissional da área de RelGov, quais foram as maiores dificuldades que enfrentou no momento de executar estratégias em estados e municípios?

A falta de informações e de transparência em alguns estados e municípios dificulta a compreensão e o acompanhamento do cenário político e, consequentemente, a percepção de riscos e oportunidades regulatórias. E por incrível que pareça, essa situação não acontece apenas em municípios menores, encontramos essa ocorrência em estados e capitais também.

Atualmente cada casa legislativa, de estados ou municípios, tem seu site/sistema de tramitação de matérias legislativas; até mesmo as localidades que utilizam o  Sistema de Apoio ao Processo Legislativo (SAPL), desenvolvido pelo Senado Federal, o fazem de maneira disforme, por isso a obtenção de informações segue sendo nosso maior entrave.

A pandemia trouxe muitas mudanças a esse cenário, com as sessões deliberativas, reuniões de comissões e audiências públicas ocorrendo de forma remota. Tivemos casos, como na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde discussões importantíssimas se deram em grupos de WhatsApp.

Há também a situação das localidades que utilizaram a adversidade para implementar avanços tecnológicos ao site, passando a transmitir suas reuniões regularmente, atualizando as agendas com frequência e disponibilizando documentos referentes à tramitação de matérias legislativas; outros, que não dispunham de tantos recursos, passaram a utilizar as redes sociais da casa, como Facebook e Instagram, para registrar suas atividades legislativas.   

Qual o papel das instituições privadas na construção de políticas públicas para a região em que atuam?

As instituições privadas, originalmente, não estão entre os atores responsáveis/atuantes no processo de elaboração e implementação de políticas públicas. Entretanto, por meio das relações institucionais e governamentais, passam a participar de ambientes de discussão/decisão, contribuindo para um diálogo mais técnico, diverso e estruturado, colaborando para a elaboração de políticas mais eficientes.

Nos últimos dois anos, o aumento na produção de dados fez com que fosse ainda mais desafiador acompanhar as atividades de estados e municípios. Além da grande quantidade de informações, quais as outras dificuldades que o profissional de Relgov enfrenta no monitoramento de esferas estaduais e municipais?

Cada um dos entes federativos possui particularidades, com conjunturas políticas e estruturas decisórias próprias, bem como condições socioeconômicas e culturais. Fatores que impactam diretamente a atuação dos profissionais de relações governamentais.

Em razão da diversidade de informações e de formatos em que estas são disponibilizadas, quem atua no monitoramento de entes subnacionais precisa desenvolver muito bem a comunicação e o jogo de cintura, pois as estratégias terão de ser adaptadas em cada nova região. 

Como por exemplo a atenção ao cenário nacional e como os temas irão se relacionar nas cidades de interesse, bem como no movimento contrário a esse;  quando temas locais influenciam políticos e decisões nacionais; a diferença de regimentos internos e política local, compreendendo o impacto das composições de bancada e relações partidárias; a celeridade de tramitação de matérias; e o gerenciamento eficiente de stakeholders. 

Desde o início da pandemia, as casas legislativas locais se depararam com uma crescente demanda na tomada de decisão para adotar medidas necessárias no combate ao coronavírus. O que essa situação adversa trouxe como ensinamento aos profissionais de RelGov?

Acredito que a necessidade de estar atento ao cenário subnacional, e não apenas ao nacional, compreendendo que decisões locais muitas vezes são replicadas de forma instantânea, em normativos do Poder Executivo, bem como em matérias legislativas, o que nem sempre é o cenário mais adequado e acaba gerando instabilidade e novas normativas.

O monitoramento de notícias de jornais locais também tornou-se uma ferramenta importante, pois a formalização de muitas ações via Diário Oficial muitas vezes acontece de forma tardia; bem como o acompanhamento de redes sociais de parlamentares, prefeitos, governadores e etc. tornou-se outro importante instrumentos, visto que lives e entrevistas coletivas se tornaram parte da rotina de diversas autoridades. Por fim, e mais importante, aprendemos a importância de filtrar informações e checar sua veracidade antes de compartilhá-la ou considerá-la para estratégias.     

As tramitações na esfera federal, em geral, levam em média quatro anos até serem convertidas em uma norma legal, diferente das tramitações estaduais e municipais que são muito mais dinâmicas. Levando esse fato em consideração, como o tempo na tomada de decisão influencia nas estratégias do profissional de RIG?

Sem dúvidas o tempo de atuação é bem reduzido, em comparação ao observado em âmbito federal. Cabe também destacar o poder de influência do executivo local na atuação dos parlamentares, os dois fatores têm total relação com a diferença numérica de parlamentares eleitos em cada casa legislativa. Com menor número de decisores, o poder de atuação de cada um aumenta. Ou seja, torna-se mais fácil chegar a um consenso ou influenciar uma posição entre os pares; a composição das comissões é menor, bem como o número de votos necessários para aprovação ou derrubada de uma matéria.

Por exemplo, há casas legislativas no interior de São Paulo que não realizam reuniões de comissões para discutir matérias, o relator apenas elabora um relatório sobre o texto e o submete aos demais membros via sistema, caso não haja manifestações contrárias em um período específico a matéria é considerada aprovada e segue para a comissão seguinte, e posteriormente para o Plenário, o que torna todo o processo legislativo extremamente rápido. 

Por isso, a agilidade na identificação de informações é um fator primordial no monitoramento, a compreensão do regimento interno e de ferramentas previstas para o adiamento ou precipitação das deliberações é outro aspecto imprescindível para que estratégias de atuação sejam propostas e validadas com celeridade.

Como você avalia o vínculo partidário dos parlamentares? O partido exerce um maior poder de influência na tomada de decisão entre os líderes e os que atuam em casas legislativas estaduais e municipais? Como o profissional de RelGov deve estar atento a isso?

Isso depende do “Brasil” monitorado. Em algumas casas, principalmente estaduais, o partido exerce um maior poder de influência na atuação dos parlamentares, há uma atuação realmente coordenada entre bancadas e partidos, lideranças de governo e etc, como é o caso da Assembleia Legislativa de São Paulo. 

Entretanto, em outras regiões, seja pelo número de parlamentares eleitos, partidos representados, ou pelo tamanho da cidade, parlamentares do mesmo partido podem votar de forma divergente em atendimento às demandas da população, por questões ligadas à religião ou inúmeros outros fatores presentes na realidade local. Situação que reforça a necessidade de uma pesquisa profunda sobre a realidade local. Não há verdades absolutas.

Por apresentar uma agenda de atividades bastante movimentada, a política local requer menos formalidades e pede uma apresentação muito mais focada e bem apurada. Qual o segredo para conseguir se destacar em meio a tantas informações que serão analisadas? Como chamar a atenção para os interesses em pauta?

Acredito que o segredo é a pesquisa. Entender com quem iremos tratar, qual o seu histórico, quais são os seus interesses e sua teia de relacionamentos. Mediante essas informações precisamos adequar nosso discurso a quem o receberá. 

Por exemplo, se o parlamentar está mais alinhado ao setor de serviços tradicionais e tem resistência a novos formatos, construir conceitos que demonstrem os benefícios de inovar pode ser uma boa abordagem. Então, apresentar o estímulo a novas contratações, favorecimento ao turismo, novas receitas ao Executivo e pioneirismo na pauta, podem ser bons argumentos para estabelecer um relacionamento e chamar atenção para a temática. 

A qualidade e clareza das informações apresentadas pode ainda tornar nosso cliente uma fonte segura para discussões sobre aquela temática.

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